Matéria de Nelson Araújo/Revista Globo Rural
Na região dos Andes, na Colômbia, existem mais de 550 mil pequenos produtores de café. Nelson Araújo passou três dias com o Dom Horacio Montoya.
Vamos rever o que é tido como o café mais suave do mundo: o café da Colômbia, que Nélson Araújo foi experimentar nos Andes.
Na Colômbia, os Andes se dividem em três cordilheiras; a zona cafeeira fica na cordilheira central, mais para o centro-oeste, no departamento de Quindio, entre Manizales e Pereira. Nessa região, existem mais de 550 mil pequenos produtores de café, e Nelson passou três dias com o cafetero Dom Horacio Montoya.
Dom Gonçalo Ramirez, foi metralhado quando ia de jipe para uma de suas fazendas
Onde hoje em dia só se vê cidade, antes era uma pequena aldeia Quimbaya. Em 1540, um marechal espanhol à procura de ouro emboscou a tribo e acabou com os índios. Foi o primeiro da histórica e interminável série de conflitos que até hoje a região vive.
No dia em que a gente chega a Pereira, a manchete dos jornais é sobre o assassinato de um dos maiores cafeicultores da Colômbia, Dom Gonçalo Ramirez. Dom Gonçalo ; caiu numa emboscada de guerrilheiros. Ele nunca se envolveu com política, mas, assim como qualquer pessoa de maior evidência na Colômbia hoje em dia, corria o risco de ser sequestrado. Ele morreu quando tentava escapar; atualmente, cerca de três mil pessoas estão sequestradas na Colômbia.
O cafeicultor é uma entre as milhares de vítimas que a guerrilha e o narcotráfico fazem todo ano na Colômbia. A violência no país tem diminuído, mas é rara a semana em que não se tem notícia de um atentado, da explosão de uma mina ou de um cofronto que acaba em mortes.
Por isso, é com toda cautela, observando com receio cada curva, que começamos a subir as montanhas onde Dom Gonçalo foi assassinado. Felizmente, nada de mal nos acontecerá; pelo contrário.
Assim que deixamos Pereira, já sentimos o ar puro dos altiplanos da cordilheira e vemos os cafezais se esparramando a perder de vista pelas vertentes. O estilo das construções tem um quê familiar: lembram a arquitetura colonial brasileira.
No município de Manizales, subimos um trecho da cordilheira que é chamado de "Alto del Naranjo", a "Montanha das Laranjeiras", referência a um pomar que não existe mais. Pela estradinha escarpada, a gente subiu até alcançar a propriedade de um produtor cuja família há três gerações planta café no trópico alto.
Dom Horácio Montoya e dona Lucero Atehortya, recebem repórter do Globo Rural
e dona Lucero Atehortya são nascidos e criados nessas dobras de montanha. Eles têm dois filhos: Joana, de 17 anos e um rapaz, de 14, que se chama Diego Armando. A propriedade deles, ou "finca", como dizem por lá, tem cinco hectares: um hectare de pasto e o resto lavoura. Tudo é ladeiroso; o único lugar plano é onde fica a casa e o paiol de beneficiamento, cujo teto serve de terreiro para secagem de café.
A finca de dom Horácio Montoya fica a 1.700 metros de altitude. Na região, tem plantio de café bem mais acima, até dois mil metros. No cume, a Cordilheira dos Andes passa dos cinco mil metros; o ponto culminante é um vulcão adormecido, o "Nevado del Ruiz".
O solo lá é de origem vulcânica, como explica dom Horácio ao montar no cavalo “Muñeco”, ou "Boneco", no começo da descida por onde vamos baixar para a lavoura. É um engano pensar que pra baixo todo santo ajuda; a propriedade tem 20 mil pés de café, e a trilha vai escorregando em zigue-zague. Desafortunadamente, a colheita no dia estava acontecendo no fim da linha.
Dom Horácio Montoya, ensina o repórter Nelson Araújo à apanhar café
No caminho, há muita banana. O café vai melhor na sombra, e a folhagem da bananeira protege o solo. Para evitar a erosão, a capina é no facão.
Vendo esta cena, dá para entender melhor uma outra que assistimos no teatro do Parque Nacional do Café: um bailado muito bonito em que os pares dançam com facões. No sul do Brasil, temos algo parecido: aquela turma grande de apanhadores, uma frente de trabalho. Por isso, até estranhamos quando Dom Horácio informa que já chegamos à área de colheita: parece que, além de nós, não tem ninguém.
Sem cerimônia alguma, Dom Horácio convoca Nelson para participar da apanha. Rapidamente, ele ajusta o canasto - tipo de um baldinho - na cintura e nos conduz para área que no Brasil chamamos de tabuleiro. Mais parece embrenhar no desfiladeiro. Só então, percebemos que já há outras duas pessoas colhendo, e é uma surpresa ver como eles fazem.
Imediatamente, vem à cabeça imagens da nossa colheita tradicional. No Brasil, primeiro, se estende um pano embaixo dos pés de café; depois, se faz a derriça. A mão corre firme pelo galho arrancando os frutos. É uma limpa da rama, levando inclusive folhas. Os grãos se amontoam pelo chão. Então, vem a famosa cena que inclusive já inspirou poetas e pintores: o café é levantado na peneira até que saiam as impurezas.
Na Colombia colhe-se só os grãos maduros
Na Colômbia, não tem peneira, não tem pano no chão nem tem derriça. Dom Horácio explica que se colhe grão por grão, um por um. Seja da cereja vermelha ou amarela, somente os grãos maduros são colhidos. Nada vai para o chão e, sim, para o cestinho. Outra novidade: embora haja um pico de safra em setembro, lá se colhe praticamente todos os dias, em todos os meses, o ano inteiro.
Com certeza, levaria um tempo para ganhar a habilidade que eles têm debulhando as ramas. Quando Nelson começa a pegar o jeito, os apanhadores param e chega a hora do almoço. Dom Jorge Elias conta que já trabalhou em pomares bem mais inclinados e que, não faz tempo, caiu e se machucou. Dom Elias ganha o equivalente a R$400,00 por mês; não é um soldo “bueno” mas dá bem para manter a mulher e dois filhos. "Me falta a juventude", ele diz.
Na hora de retomar a apanha, começa a cair uma chuvinha fina. Dom Horácio manda suspender tudo, pois a água pode estragar o que já foi colhido. Nelson conseguiu quase nada, nem dois quilos, quando Dom Elias, por exemplo, tira de 80 a 100 quilos num dia.
Imediatamente, eles ajeitam a carga no Muñeco: três sacos de café de 40 quilos, mais um senhor cacho de banana. E se pra descer já foi difícil, imagine para subir: o esforço ladeira acima é redobrado. Dom Horácio diz que trabalhador nos Andes tem que ter preparo de atleta. Às vezes, tem que subir mais depressa do que desceu.
Quando galgamos o topo da montanha, a chuva ajuda de novo, indo embora. Apesar do cansaço, dom Horácio diz que precisa ainda fazer algo que não pode deixar para depois: levar o café para o despolpador. A velha máquina joga a casca para um lado e o grão para o outro e libera uma substância viscosa - a mucilagem, que altera o gosto do café depois de seco; mas ela se solta se ficar em fermentação até o dia seguinte.
Para terminar o dia, Dom Horácio oferece um revigorante típico da Colômbia. A "água-canela" parece um guaraná mais escuro, mas é feito de rapadura. Dona Lucero mostrou como se faz: simplesmente pega-se meia rapadura e põe pra derreter numa panela com dois litros de água; depois, é só deixar na geladeira.
Imagens extraídas do Site Globo Rural