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Sul da Bahia, 31 de julho de 2010
Juiz 'Indiana Jones' exporta eleições brasileiras para o mundo
sábado, 09 de agosto de 2008 às 17h29

09/08/08 - 14h19
Dani Blaschkauer Do G1, em São Paulo

O juiz Paulo de Tarso em avião que teve que pousar em campo de futebol na República Democrática do Congo (Foto: Arquivo pessoal)

Como 'arma', ele carrega camisas do Brasil para evitar apuros.

O juiz Paulo de Tarso em avião que teve que pousar em campo de futebol na República Democrática do Congo (Foto: Arquivo pessoal)
O juiz Paulo de Tarso em avião que teve que pousar em campo de futebol na República Democrática do Congo (Foto: Arquivo pessoal)
Apelidado de ‘Indiana Jones’, ele nunca viu a arca perdida, não usa chicote e nem revólver, mas já foi perseguido por multidões, atravessou lugares no lombo de camelos e elefantes, e viu o avião em que viajava ter que pousar em um campo de futebol. E tudo isso para mostrar como funcionam as eleições no Brasil e ajudar na organização do pleito de uma dezena de países.

O juiz auxiliar Paulo de Tarso Tamburini Souza é um dos enviados das Organizações das Nações Unidas (ONU) e também do Tribunal Superior Eleitoral para colaborar em forças-tarefas nas eleições de dezenas de países pelo mundo.

“A intenção é mostrar como funcionam as eleições no Brasil e explicar melhor como é feito o cadastro eleitoral aqui”, afirma ele.

“Essa força-tarefa tem como principal objetivo prestar assistência eleitoral onde for solicitado. Seja nos países onde tiveram conflito ou mesmo durante o conflito”, diz.

Em suas viagens, que já preencheram mais de seis passaportes, passou por República Democrática do Congo, Ruanda, Moçambique, Palestina, Burundi, México, Uganda, Guiné-Bissau, Zâmbia, entre outros. A próxima parada pode ser Nigéria, mas ele torce mesmo para ser o Iraque.
Paulo de Tarso (camiseta preta) brinca com crianças (Foto: Arquivo pessoal)
Paulo de Tarso (camiseta preta) brinca com crianças (Foto: Arquivo pessoal)

“No Iraque, tem o desafio do trabalho. Quando se faz algo que já funciona, é só apertar um botão. Agora quando tem o desafio de instalar, criar, enfrentar uma realidade nova, é preciso exercer toda a sua diversidade cultural para atender a necessidade peculiar do país e do povo”, diz.

“Ainda mais o Iraque, que tem tantas nações lá dentro, e enfrenta uma crise. Eu acredito que uma saída para a crise não deve vir a curto prazo. Lá, é preciso fazer esforços para ajudar a democracia, e ajudar a população na criação do estado é um privilégio, é uma honra”, completa.

Grupo da ONU foge de manifestantes na República Democrática do Congo; Paulo de Tarso conta que estava no carro que aparece na imagem e que a foto foi feito por um segurança no veículo da frente (Foto: Arquivo pessoal)

Congo
Grupo da ONU foge de manifestantes na República Democrática do Congo; Paulo de Tarso conta que estava no carro que aparece na imagem e que a foto foi feito por um segurança no veículo da frente (Foto: Arquivo pessoal)
Grupo da ONU foge de manifestantes na República Democrática do Congo; Paulo de Tarso conta que estava no carro que aparece na imagem e que a foto foi feito por um segurança no veículo da frente (Foto: Arquivo pessoal)


Em 2006 e 2007, o Congo enfrentou momentos conturbados nas eleições presidenciais entre os candidatos Jean-Pierre Bemba e Joseph Kabila. O juiz brasileiro e colegas de diversos países – todos enviados pela ONU-, estavam no país africano para monitorar o pleito.

Eles, porém, passaram por apertos. Grupos de pessoas literalmente correram atrás da delegação da ONU para expulsar os estrangeiros, que chegaram a ficar praticamente sitiados dentro da embaixada.

“Em abril de 2007, era uma coisa de política diplomática, porque a mulher do Bemba tem nacionalidade brasileira. O nosso temor era que fosse pedir asilo para a gente, e daí o povo poderia tomar tudo dentro da embaixada. Daí seria uma questão política de estado, com conseqüências físicas. Mas tudo se solucionou graças ao fato de o Bemba pedir asilo na África do Sul, que era ao lado da casa dele”, lembra.

Avião russo é arrumado após pouso de emergência, em uma das milhares de fotos feita pelo juiz brasileiro (Foto: Arquivo pessoal)
Avião russo é arrumado após pouso de emergência, em uma das milhares de fotos feita pelo juiz brasileiro (Foto: Arquivo pessoal)
Avião russo é arrumado após pouso de emergência, em uma das milhares de fotos feita pelo juiz brasileiro (Foto: Arquivo pessoal)

Também na República Democrática do Congo ele passou por novos apuros. Desta vez, no ar.

“Viajávamos em um avião russo antigo, um Antonov, da cidade de Bujumbura, do Burundi, para Goma”, conta.

Souza conta que o piloto comentou que o avião estava com problemas técnicos e que era necessário um pouso de emergência naquele instante. O detalhe: não havia qualquer aeroporto nas proximidades. “A solução foi pousar em um campo de futebol”, conta.

Medo
Ruínas após a cidade de Ramalah (Foto: Arquivo pessoal)
Ruínas após a cidade de Ramalah (Foto: Arquivo pessoal)

Nem mesmo ter ficado na Palestina nas últimas eleições presidenciais foram suficientes para causar uma grande apreensão no brasileiro. Aliás, medo, ele diz que só tem um.

“Tomar tiro e morrer faz parte do trabalho. Você já vai com esse risco, da mesma forma que um médico entra no hospital para pegar doenças. Eu tenho medo é de não conseguir realizar o trabalho. Já sofri atentados de quase todos os tipos, passei por campos e regiões em elefantes e camelos e até corri sérios riscos de doença, mas o meu medo é o de não conseguir realizar o meu trabalho”, diz.

O trabalho no caso vai desde fazer palestras na ONU como demonstrar o sistema eleitoral brasileiro. Apesar de nenhum país utilizar a mesma urna eletrônica do Brasil, o juiz pode ajudar com exemplos. E um deles, utilizado por Souza, é justamente a urna feita no país.
Paulo de Tarso acompanha eleições presidenciais na Palestina (Foto: Arquivo pessoal)
Paulo de Tarso acompanha eleições presidenciais na Palestina (Foto: Arquivo pessoal)

“Cada país tem que se adaptar com a sua realidade. Mas, no caso do Congo, por exemplo, eles estão na mesma linha que o Brasil. E também tem floresta e áreas de difícil acesso”, fala.

“Mas as pessoas às vezes não se tocam do trabalho que nós tivemos em desenvolver uma urna que pudesse resistir à umidade da Amazônia, ao clima seco do sul do país, aos baques e barrancos, ao lombo de burro, avião, e também o conhecimento de transmissão via satélite”, exemplifica.

Souza revela que já viu em eleições pelo mundo afora cédulas gigantes no Congo, onde havia mais de 200 candidatos no papel, e todos com fotos. "Tem muita gente analfabeta e isto era necessária”, revela. Já no México, viu uma caneta que deixa marca no dedo, tudo para evitar que uma pessoa consiga votar duas vezes.

Apelido

Único representante brasileiro na força-tarefa da ONU, Souza não esconde a ponta de orgulho em ser apelidado de ‘Indiana Jones’, alcunha que recebeu de companheiros de profissão.

“O apelido é porque foram vários lugares onde fui que têm problemas. O apelido foi dado informalmente pelos ministros do TSE e também por colegas”, diz. Mas incomoda? “Meu problema não é o apelido, é fazer o trabalho. O Indiana Jones está ficando velho, e eu também”, afirma ele, aos 42 anos.

Camisa da seleção

Diferentemente do personagem interpretado por Harrison Ford, a arma do juiz não é um chicote ou um revólver. Para vencer momentos críticos, o uniforme é o seu grande trunfo.

“Ando ou com uma camisa do Brasil, ou com um boné com a bandeira do país. A paixão pelo Brasil é muito grande e ajuda muito o trabalho. Já cheguei a usar a camisa da seleção de futebol também, porque há lugares com uma grande resistência a estrangeiros e uma desconfiança com relação à ONU. No Congo, por exemplo, há um grande ressentimento com a ONU”, revela ele, que já chegou a distribuir roupas com o nome do Brasil costurado no país africano e também em Jericó.

O fato de o Brasil ser bem visto, segundo ele, transformou-o em uma espécie de ‘diplomata do voto’.

“Este trabalho que faço é muito bom para o Brasil porque a Justiça Eleitoral abre portas importantes, como ocorreu no Congo. Abriram-se portas comerciais, financeiras, de exportação e contatos variados. O Brasil concedeu mais de 200 bolsas de estudos. Aumentou consideravelmente a relação bilateral”, diz.

“Eu chamaria, informalmente, esse trabalho de diplomacia judicial”, afirma Souza, que agora deixará a função no Tribunal Regional Eleitoral de Minas para trabalhar como juiz auxiliar no Superior Tribunal de Justiça, em Brasília. “Mas espero conseguir autorização para continuar com este trabalho com a ONU”, disse.

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