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Sul da Bahia, 22 de Dezembro de 2014
 
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Conheça a festa da Broa no interior de São Paulo
Por: NossaCara.com - Data: 15/08/2010 - 10:19:43

 

Começa neste domingo a Semana do Folclore. É hora de celebrar a cultura popular e antigos costumes, passados de geração em geração.

http://globoruraltv.globo.com

Em Silveiras, São Paulo, a repórter Ana Paula Campos mostra uma tradição que vem dos tempos do tropeirismo. É um mutirão de dois dias para preparar uma festa com muita comida. O destaque é uma receita antiga de broa de milho.

Uma praça, uma igreja e uma tranquilidade de fazer inveja a quem mora na cidade grande. Silveiras, no Vale do Paraíba paulista, é como muitos outros pequenos municípios brasileiros. Lugares como este fazem voltar no tempo.

No passado, a hoje tranquila Silveiras já viveu dias muito diferentes. No lugar, ficavam os melhores ranchos que recebiam os tropeiros vindos de Minas Gerais. O mais famoso era o da família que deu nome ao município. No ciclo do café, chegou a ter a quarta maior população do vale. Isso até a decadência das lavouras, na década de 30.

Silveiras faz parte de um grupo de municípios do Vale do Paraíba que recebeu do escritor Monteiro Lobato um título nada honroso: o de cidades mortas por não ter conseguido se recuperar da crise do café.

Até que no fim dos anos 70, surgiu na região um movimento de valorização do que antes era considerado um atraso: a cultura caipira. Os moradores recuperaram ainda outro talento adormecido: de receber bem os visitantes, de preferência com festa.

Na tradicional Festa da Broa de Silveiras, os moradores se reúnem num mutirão para preparar uma comilança que tem no cardápio leitoa assada, frango frito e, claro, muita broa de milho servida com café fresquinho.

Mas como surgiu esse mutirão? Quem lembra é seu Josias Andrade, o Zé Silveiras, cantor e violeiro. Parceiro na vida e na música da mulher, dona a Mariinha, com quem faz dupla há muitos anos. O filho mais velho, Julio, é quem toca a sanfona. “Eu criei essa festa por causa de uma promessa que eu tive que fazer”, contou.

Tempos atrás, a dupla tinha uma apresentação importante na TV e dona Mariinha ficou doente. Mas deu tudo certo. O sucesso foi tanto que só podia ser obra do santo.

“Então eu fiz a promessa para São Gonçalo que faria festa sete anos porque diz que tem que fazer sete anos. É uma tradição folclórica. Então, eu fiz a festa sete e prolongou. Passou de sete”, disse seu Zé Silveiras.

A broa, que hoje virou a estrela da festa, só chegou anos depois, numa lembrança da infância. “Eu ia aos mutirões com a minha mãe. Mutirão para limpar café, limpar milho. Aqui, antigamente, tinha muito há 60 anos. Aí, eu lembrei daquela broa que eu comia no mutirão. Aí eu inventei de fazer. É uma broa forte para dar força para os homens trabalharem”, justificou seu Zé Silveiras.

O seu Zé Silveiras não participa mais do mutirão da broa. Mas a semente plantada por ele deu muitos frutos.

À beira da estrada, debaixo de um abrigo improvisado, o seu Josias Mendes passa o dia fazendo um serviço que aprendeu ainda jovem, com o pai. “Há 23 anos eu faço balaio aqui. A árvore de cedro fui eu que plantei. Plantei ela com dois metros”, lembrou.

Grande também é a saudade quando ele se lembra da companheira com quem teve 14 filhos. “Faz onze anos que ela faleceu. Ela faleceu de câncer. Até hoje sinto saudade dela. Saudade de mulher e de quem larga de fumar nunca acaba. Eu larguei de fumar também, mas se eu vou fumar um fumo bom do que eu usava ainda tenho saudade ainda. É igual com a mulher. Mulher eu também não esqueço dela”, comparou seu Josias.

O seu Josias é o último tropeiro ainda vivo de Silveiras. Ele recebeu até homenagem no portal da cidade. “Eu virei estátua em Silveiras. Acharam eu merecido. Puseram eu lá. Eu to lá”, disse.

O seu Josias gosta de desafios. Um deles foi reformar um velho moinho desativado para produzir fubá. É um negócio tratado com uma família da região. “Eu falei: eu não pago nada procê, mas fubá pro cêis comê eu ainda dô”, avisou.

Trato feito. Ele recuperou sozinho o moinho, parado havia 20 anos. Foram 12 dias para limpar, desentupir os canos e colocar a pedra prá rodar.

O seu Josias achou que dali sairia fubá apenas para o consumo dele e dos compadres. Que nada! O fubá amarelinho vende como água. O fubá de moinho de pedra é o segredo de muitas receitas saborosas. Mas uma é especial. “Quem sabe fazer essa broa é a comadre Vicentina do Sertão dos Marianos”, indicou.

Seguimos a dica valiosa, rumo ao Sertão dos Marianos, que leva esse nome por causa da família que fundou o bairro. A dona Vicentina e o marido nos receberam na porteira.

A comadre Vicentina mantém uma horta e uma pequena criação. Quase tudo que a família precisa para viver sai da plantação, inclusive os ingredientes para a broa: abóbora, batata-doce e inhame.

Dia de fazer broa é dia também de reunir a família. Quem vai prestigiar é seu Ditinho Mariano, pai da dona Vicentina. “Sempre toco. Não aprendi leitura, sou analfabeto, mas sou um artista”, disse.

A dona Vicentina aproveita para apresentar a família. “Estão aqui meu pai, minha mãe, minha filha, minha irmã Célia, o cunhado Vicente e o marido Brás”, enumerou.

Sabe aquela história de que na roça todo mundo é parente? Cai bem aos Marianos. A dona Vicentina e a irmã Célia casaram com dois irmãos: o seu Brás e o seu Vicente, que vêm a ser primos da dona Noêmia, a mãe da Vicentina. Eles são primos da sogra.

“Aí quando junta não pode falar mal do outro porque tudo é parente, né? Não tem causo para contar”, brincou dona Vicentina.

O seu Vicente começou a frequentar o bairro para visitar o irmão, já casado com dona Vicentina. Mas o interesse era outro. “Eu vinha por causa da broa”, admitiu.

É hora, então, de conhecer os segredos dessa broa cheia de histórias. Os ingredientes para a receita são:

2 quilos de fubá
2 quilos de açúcar
1 quilo de farinha de trigo
1 quilo de abóbora crua ralada
½ quilo de inhame cru descascado e ralado
1 quilo de batata-doce cozida e amassada
8 ovos
1 copo de 200 mls de banha de porco
3 colheres de sopa de fermento
1 colher de sobremesa de bicarbonato de sódio
1 colher de sopa de canela em pó
1 copo de chá de erva-doce e cravo coado
1 pitada de sal


Então, a dona Vicentina ensina a fazer essa broa tão tradicional em Silveiras.

Dona Vicentina e a filha preparam os ingredientes para fazer a broa sendo observada pela repórter do Globo Rural
Dona Vicentina e a filha preparam os ingredientes para fazer a broa sendo observada pela repórter do Globo Rural
Primeiro, coloque o ovo. Depois, acrescente o açúcar. A dona Vicentina começa a mexer e não para mais. Em seguida; vem o inhame; a abóbora, que dá um colorido à massa; e a batata-doce. E uma dica importante: a batata doce deve ser descascada ainda morna. “Se esfriar muito, daí fica difícil de tirar a casca”, alertou a dona Vicentina.

A dona Vicentina acrescenta a banha de porco; o chá de erva-doce e cravo; a canela; o sal; o fermento; o bicarbonato de sódio, para deixar a massa mais macia; a farinha de trigo; e, por último, o fubá feito no moinho de pedra.

O momento em que é colocado o fuba de milho durante o preparo da broa
O momento em que é colocado o fuba de milho durante o preparo da broa
O fubá é colocado aos poucos para evitar que a massa fique seca. O ponto certo é quando dá para fazer bolinhas firmes. Antes de enrolar a dona Vicentina molha a mão numa mistura de leite e óleo para evitar que a massa grude nos dedos. Nas formas, untadas com bastante óleo, as broas estão prontas para assar.

É hora de preparar o forno. Na noite fria, a lenha, que passou o dia queimando, aquece a família. A dona Vicentina varre a brasa para fora do forno para não deixar gosto de queimado na broa.

As formas vão todas para dentro do forno. Depois de 20 minutos no forno, a broa está pronta. O cheiro de erva-doce perfuma a cozinha. Ninguém resiste à massa quentinha e macia. É uma delícia.

A broa sai do forno quentinha e pronta pra ser dugustada com aquele cafezinho da roça
A broa sai do forno quentinha e pronta pra ser dugustada com aquele cafezinho da roça
Uma vez por ano, a dona Vicentina e a Ivone se juntam a outros moradores de Silveiras num mutirão, que começa na sexta-feira e só termina no sábado à noite.

Dá uma trabalheira para preparar uma festa com muita comida. A broa é o destaque. A diferença é que a receita é multiplicada muitas vezes. São 50 quilos de abóbora, outros 50 de inhame e mais outro tanto de batata-doce. É uma montanha de ingredientes para fazer 60 quilos de broa, que serão distribuídos de graça. Haja braço para ralar, amassar e descascar. Nos mais de 20 anos da festa, nunca faltou voluntário. No salão da igreja, ninguém dá as ordens. Todo mundo sabe o que fazer.

Já começa a anoitecer e o mutirão da broa ainda tem muito trabalho pela frente. Mas já é hora também de começar a temperar os 90 frangos que serão leiloados na festa. O toque especial vem do tempero do seu Aníbal.

“No molho, eu coloquei vinagre, sal, pimenta e alho. Basta mergulhar o frango dentro que pega o tempero”, revelou se Aníbal.

O seu Josias, que não fica de fora do mutirão, ajuda no preparo dos frangos. “Até 400 eu já temperei”, contou seu Josias.

Os frangos vão para a panela, inteiros, e são fritos em óleo bem quente e farto. Passa das dez da noite quando a primeira fornada fica pronta. As broas saem do forno e, ainda quentes, vão direto para o balaio feito pelo seu Josias. O segredo para que fiquem fresquinhas é deixar tudo dentro de um pano bem úmido.

“Daí joga água e ela fica molinha, fofinha. Se não jogar água ela fica que nem um pau de dura”, orientou dona Vicentina.

A maratona avança pela madrugada. Quando o sol se levanta, seu Josias já está de volta ao batente. “A gente cansa um pouco, mas tem que aguentar. Arriar a bandeira não pode”, justificou.

Não pode mesmo porque ainda falta preparar as leitoas, que também serão leiloadas. Depois de passar a noite no tempero, elas ao forno a lenha. Em seguida, a dona Benedita prepara outro prato disputado: cabeça de porco recheada. O courinho é costurado pra receber uma farofa caprichada.

“O recheio é dos miúdos do frango e dos miúdos da leitoa também, que é o figo, a paquerinha delas”, contou dona Benedita.

Quando a festa começa, a praça de Silveiras fica lotada. E ali perto, no meio da rua mesmo, começa o leilão. O primeiro item oferecido é o frango frito. Disputado mesmo é o pedaço de leitoa assada, que saiu por R$ 43 no preço final.

O cheiro de café, passado na hora, anuncia que vai começar a distribuição da broa. A fila se forma. São 20 litros de café preto, fresquinho. Tiradas do saco úmido, as broas não param na bacia. Tem gente que come ali mesmo. Outros levam para casa e muitos fazem as duas coisas.

É bom ver essa gente unida e incansável para manter viva a memória que a cada ano se renova num animado festão.

Este ano, foram arrecadados R$ 1,1 mil nos leilões da festa. Pode parecer pouco, mas esse dinheiro será usado em melhorias no bairro e para ajudar as famílias de baixa renda.

 

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