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Matéria extraída do Site - http://www.mercadodocacau.com.br
No decorrer dos séculos dezenove e vinte, a sociedade grapiúna teve os municípios de Ilhéus e Canavieiras como destaques, por terem cultivado, sistemática e comercialmente o cacau. Daquele modo, Ilhéus e Canavieiras foram moldando no seu entorno um espaço social que, ao longo do tempo e dos choques de interesses e disputas diversas, constituíram uma cultura própria. Segundo o historiador Charles Nascimento de Sá “Itabuna, distrito pertencente a Ilhéus, e Camacan, povoado pertencente a Canavieiras, foram exemplos de duas cidades que surgiram durante a expansão do cacau para novas áreas e que, posteriormente, adquiriram um perfil urbano, político e econômico que lhes possibilitaram superar suas antigas sedes. A cidade de Camacan surgiu durante o período de expansão da lavoura cacaueira no sul da Bahia”.
Foi assim que, posteriormente, Camacan (emancipada de Canavieiras em 1961), trilhou um caminho de crescimento extraordinário. Em 1973, por exemplo, segundo a CEPLAC e o Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA) 45,6% do cacau produzido no Estado da Bahia provinha de dez municípios, a saber: “Ilhéus, Camacan, Una, Itabuna, Uruçuca, Canavieiras, Itajuípe, Coaraci, Ipiaú e Ibirapitanga – nesta ordem”. Já o jornal O Estado da Bahia, em 1977, informava que Camacan, havia produzido um milhão e duzentas mil arrobas de cacau (superando Ilhéus em quinze mil arrobas), tornando-se assim, o primeiro produtor de cacau do Brasil. Naquele mesmo período, as projeções dos técnicos do escritório da CEPLAC no Município estimavam a produção para um milhão e trezentas e cinquenta mil arrobas.
Outro aspecto importante a ser considerado, era a idéia de que atuar politicamente pouco importava. Apostava-se tanto na auto-suficiência dos cacauais, (grandes produções e bons preços) que boa parte dos produtores não se interessava pelo fortalecimento político, o que por sua vez pode ter contribuído para um personalismo extremo, presente também em boa parte da região: o crescimento verticalizado (individualista) era tudo quanto importava; o cacau, naquelas condições, dava pra tudo – era o que se ouvia cotidianamente. O exemplo que se segue é clássico para enfatizarmos tal fato: Camacan conseguiu eleger dois deputados estaduais, na mesma época, porém, nunca conseguiu, por isso, atuar na política estadual, regional ou mesmo microrregional com firmeza e influência duradouras. Segundo um produtor camacanense, referindo-se às implicações políticas na formação daquele individualismo, “(...) o negócio-cacau nos deixou individualistas demais. Eu tinha uma propriedade grande, eu tinha toda condição de resolver os meus próprios problemas e eu não conhecia o meu vizinho que estava aqui há 20 anos. Então a gente nunca conversou, nunca trocou uma palavra. (...) Assim o cacauicultor também dizia: olha eu vou me preocupar com minha questão econômica, porque a questão política é dos políticos”.
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Deste modo, cercada por individualismos – buscar uma riqueza para si, sem preocupação de classe ou região – Camacan e suas contradições se estabeleceram: de um lado a terra farta, a riqueza e a independência econômica (para poucos); de outro a escassez, a pobreza e a extrema dependência financeira (para a maioria). O modelo agro-exportador, portanto, concentrou a terra e a riqueza, além de, em boa medida, no longo prazo, ter desequilibrado a biodiversidade da Mata Atlântica (as plantações de cacau, que antes aconteciam debaixo da Mata (cacau-cabruca), em virtude de sua expansão, passaram a ocupar áreas cada vez maiores, derrubando as árvores nativas).
O crescimento camacanense, por seu turno, não foi capaz de garantir o desenvolvimento da Cidade, melhorando, por exemplo, as condições de vida dos munícipes como um todo e particularmente dos trabalhadores rurais/urbanos. Aliás, aqueles trabalhadores não fizeram parte da contabilidade social e, genericamente, foram “esquecidos” pela história da lavoura cacaueira.