[Crônica de Edelvânio Pinheiro] O sol tímido desta quarta-feira, 6 de junho, não será suficiente para aquecer a tristeza dos familiares, amigos e colegas de trabalho da gari Neuza. Os planos que essa mulher incansável e batalhadora fez para este dia nunca serão realizados porque a morte teve espaço para se camuflar na irresponsabilidade de alguns de nós.
Querida por todos aqueles que conheciam o seu coração bondoso, a gari pensou que, debaixo de uma árvore, numa rua pacata qualquer, pudesse descansar com os colegas, por alguns minutos, do trabalho duro de limpar diariamente as ruas da cidade de Itanhém.
Pensou que ali poderia restituir as forças, energizar-se para continuar varrendo, varrendo, varrendo… Mas nas terras de Água Preta, nos últimos tempos, têm faltado tudo, até paz e direito de viver em paz.
E assim, do nada, de repente, sem que desse tempo de abraçar pelo menos um dos filhos ou de demonstrar o último gesto de carinho à mãe, surge um fantasma e tudo se esvaece.
Triste terça-feira.
Ouviram-se gritos de socorro. Moradores do local e todos que passavam por ali se solidarizaram, tentando amenizar a tragédia.
– Chame o SAMU! – apela alguém, desesperado.
– O SAMU chegou, graças a Deus! – exclama outro, com olhar de esperança.
A viatura para e os dois socorristas descem apressadamente.
Neuza havia sido atingida de forma brutal e seu corpo, debaixo do pneu da caçamba, que havia descido sem governo, insistia em não mais responder aos sinais da vida. Outra gari estava com o pé preso ao outro pneu traseiro.
O motorista do SAMU era Ueslei Medina, que como todo e qualquer samuzeiro enxerga a vida nos lugares mais irrespiráveis e semeia na luz ou na escuridão o milagre da segunda chance de ser retirado das ruínas. É através das mãos e da coragem desses socorristas que vidas praticamente perdidas florescem novamente e seguem seu curso perfeito e divino.
Triste manhã de terça-feira.
A gari presa nos pneus da caçamba, já praticamente sem vida, era a irmã de Ueslei Medina.
Debaixo de um sol morno muitos acompanharam o cortejo, até a prefeita foi prestar suas condolências à família.
Alguns espectadores narraram aquele fatídico momento como uma fatalidade, mas para os que estiveram chorando ao pé do caixão, a morte veio cedo demais, talvez transfigurada na falta de cuidado de qualquer um de nós.
Quem sabe um dia não morreremos assim também, gratuitamente.