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Zhytomyr é ponto fulcral no corredor humanitário para abastecer Kiev e deixar sair refugiados da capital ucraniana. Russos têm atacado civis e fábricas da cidade que também fica na rota para Varsóvia e Minsk
Por: Bárbara Cruz
Nas primeiras duas semanas da invasão russa da Ucrânia, a região da cidade de Zhytomyr foi atingida com mais de 40 mísseis e ataques aéreos. Vastas áreas residenciais foram totalmente destruídas e a população, que antes da guerra rondava os 280 mil residentes, tem ficado constantemente sem água e aquecimento devido aos bombardeamentos recorrentes. Dezenas de pessoas já perderam a vida em Zhytomyr, entre civis e tropas ucranianas, mas a Rússia não dá sinais de querer abrandar a investida contra a região.
"Em mais sítio nenhum na Ucrânia existem fortificações como as que temos aqui. Estamos prontos", diz o presidente da câmara, Serhiy Sukhomlyn, à BBC, que garante que a cidade está bem protegida contra uma eventual ofensiva no solo - uma possibilidade colocada com insistência desde que o presidente da Bielorrússia admitiu juntar-se à invasão russa.
Mas qual é a importância de Zhytomyr para os russos e porque é que os ataques não têm poupado a cidade? Trata-se, acima de tudo, de uma questão de localização. Ainda que, desde o início da invasão russa, os ataques se tenham concentrado sobretudo a Sul e Leste da Ucrânia, a região de Zhytomyr é um ponto-chave a nível de logística e um importante corredor humanitário: é via Zhytomyr que chegam mantimentos a Kiev, que aguarda a grande investida russa, e é por ali que passam os refugiados que saem da capital ucraniana e procuram a sobrevivência em sentido contrário.
Russos querem cortar estradas e intimidar
A cidade de Zhytomyr, que fica a cerca de 150 quilómetros de Kiev, tornou-se um importante ponto de entrega de donativos que são encaminhados para as cidades e aldeias a noroeste de Kiev, uma região fortemente afetada pelos combates que, previsivelmente, antecem a tomada russa da capital, apesar da resistência ucraniana. E as tropas russas têm procurado, acima de tudo, cortar as estradas entre Kiev e Zhytomyr, para impedir o fluxo de auxílio aos arredores da capital.
Importante centro industrial e entreposto relevante ao longo dos tempos, é também em Zhytomyr que se cruzam as mais importantes vias rodoviárias e ferroviárias que seguem para Oeste vindas de Kiev. A cidade fica ainda na rota que liga Kiev a Varsóvia, na Polónia, e a Minsk, capital da Bielorrússia.
"Para intimidarem Zhytomyr, estão a atingir edifícios residenciais e industriais, a atingir infraestruturas", disse o autarca à BBC, garantindo que os serviços municipais têm trabalhado de forma incansável para reparar os danos nas redes de água e gás, assegurando o serviço na maior parte da cidade.
Na semana passada, Sukhomlyn atualizou no Facebook os alvos dos ataques russos: edifícios de apartamentos, uma fábrica têxtil, uma central elétrica. Antes disso, as tropas da Federação Russa já tinham atingido uma escola e dois hospitais, inclusivamente um hospital pediátrico, sem que os ataques fizessem vítimas: os doentes já tinham sido levados para um abrigo. Mas a fábrica têxtil que foi destruída produzia cerca de 70% do algodão da Ucrânia.
"Continuar a aguentar"
Nessa altura, o autarca anunciou que a cidade iria apagar a iluminação pública, seguindo o conselho do exército, perante uma aparente mudança da estratégia russa que passa por manobras aéreas muito perto do solo. "Estamos a aguentar-nos", escreveu então Sukhomlyn no Facebook, em declarações citadas e traduzidas pela CNN. "Os russos perceberam que estão a perder em todas as frentes. Não exigem o que exigiam antes. Nós temos de sobreviver e continuar a aguentar".
Nina, residente em Zhytomyr, que entretanto deixou a cidade e viajou em direção à Polónia, confirmou à BBC a mudança na abordagem russa durante o ataque que lhe destruiu a casa e não deixou pedra sobre pedra na rua onde vivia. "Parecia que o avião estava a voar muito baixo, quase a tocar-nos. O chão estava a tremer. Como é que podiam não ver que estavam a bombardear áreas residenciais?", questionou.
O autarca estima que cerca de metade da população já tenha abandonado a cidade, mas garante que tudo fará para que os que ficaram tenham condições para continuarem a sobreviver.