Pressão do eucalipto domina câmara

Por: NossaCara.com
27/02/2008 - 08:04:38

De pé, Claudionor Nunes e Junior Bahia que votaram contra o projetoCom cinco votos a favor e cinco contra, a Câmara Municipal de Eunápolis rejeitou o Projeto de Lei 014/2007, de autoria dos vereadores Vasco Queiroz e Fábio Josias Roldi que proíbe o plantio e o replantio de eucalipto num raio de 10 km do perímetro urbano, tendo como parâmetro o cruzamento da Av. Porto Seguro com a BR 101.

Entre as justificativas do projeto que tramitava na câmara desde agosto de 2007, estão: a de que a monocultura diminui a habilidade da terra para apoiar a vida humana e animal; desemprego por conta da sua alta mecanização e a expulsão do homem do campo, entre outras.
Vereadores Ubaldo Suzarte e Carmém Lucia em pé votam contra o projeto

O projeto havia sido aprovado em primeira votação, no dia 22/08/2007. Em 20 de novembro, o projeto foi novamente corroborado pelos edis com a adição de um parágrafo único que destina a área protegida para a expansão urbana.

Os vereadores que votaram contrários ao PL 014 são: Claudionor Nunes, Júnior Bahia, Carmen Lúcia e Ubaldo Suzart. Os que votaram a favor: Vasco Queiroz, Fábio Roldi, Sebastião Brito, Moacir Almeida e Félix Ruth. O vereador Benedito Carvalho se absteve.

Manobra circense

Empresas privadas distribuindo lanche aos funcionário no pátio da Câmara Com 45 minutos de atraso, o Presidente da Câmara de Eunápolis, Vasco Queiroz, inicia a sessão do dia 26/02 com um plenário repleto de funcionários de várias empresas prestadoras de serviço da monocultura celulósica, e dela própria, que foram usados como massa de manobra para os interesses expansionistas do deserto verde. A frente da câmara foi tomada por veículos que fazem o transporte diário desses funcionários.

A caminhonete de uma empresa privada estacionada no pátio da Câmara, portanto, num espaço público, era o início de uma fila para centenas de funcionários braçais que receberem um pão e um refrigerante antes de entrar no circo para fazer pressão sobre uma questão que eles não tinham a menor idéia de que se tratava. A maioria, gente simples que estava na lida desde a madrugada.

Nenhum se atreveu a dar entrevista ou se identificar, mas conversando com um e
Veracel utiliza vários ônibus para levar funcionário à Câmara
outro não foi difícil perceber que o discurso estava bem afinado. Funcionários de empresas diferentes disseram a mesma coisa, quando não, da mesma maneira. "Não vai ter mais como plantar eucalipto, a empresa vai fechar e vou perder o emprego", disseram.

Proprietários rurais, principalmente os fomentados pela Veracel, estiveram presentes a fim de contribuir para rejeitar o projeto. Lindomar Lembrance tem 38 ha de uma de suas fazendas formados de eucalipto e teme que a expressão "essência exótica", registrada no PL 014, impeça sua atividade agrícola principal, a cafeicultura, como acusa a carta aberta à população assinada pela suposta cadeia produtiva do eucalipto. Mas a carta também se refere ao coco como essência exótica, apesar de Cabral já tê-lo encontrado à farta, quando aqui aportou.

Assessoria de comunicação da Veracel presente à sessão Seja como for, o que ficou claro com a manobra da Veracel de encaminhar uma acintosa força de sua cadeia produtiva à câmara, é a sua inegável intenção de avançar sobre Eunápolis com as plantações de eucalipto. De outra forma, não justificaria tal empreitada, uma vez que o projeto não prejudica sua produção futura.

Em futuro não muito distante, as três principais avenidas do centro da cidade estarão cercadas por lavouras de eucalipto. Ou seja, Sapucaieira, Alecrim, Juca Rosa, Estela Reis, Moisés Reis, Pequi, Itapuan, Urbis I, II e III, Colônia e adjacências estarão mergulhadas sob o deserto verde. Eunápolis, de maior povoado do mundo a cidade, se transformará definitivamente em acampamento da monocultura celulósica.

Câmara trêmula

Em entrevista antes do início da sessão, Vasco Queiroz afirmou que não tem nada
O presidente da Câmara, Vasco Queiroz, em entrevista à nossa equipe
contra a Veracel, "mas queremos que ela se enquadre nas regras do nosso município", e que quer apenas evitar que Eunápolis não tenha espaço físico para crescer. Quanto ao lanche oferecido pela empresa dentro do espaço da Casa de Leis, Vasco se limitou a dizer: "ainda bem que a Veracel lembrou de alguma alimentação para essas pessoas que saíram as três ou quatro da manhã para trabalhar e agora são obrigadas a estar aqui para não perder seu emprego".

Claudionor e Júnior Bahia foram os primeiros edis a capitular diante da massa uniformizada e convenientemente homogeneizada. Tanto um quanto o outro alegou que votou da primeira vez sem se atentar para o fato de que o projeto é de competência do Executivo.

Claudionor afirmou que sempre foi contra o projeto e, "se for a favor, será contra o povo e o povo está aqui", sem saber que o povo em questão estava ali por livre e espontânea pressão dos interesses dos patrões. Júnior Bahia disse: "é mal elaborado e que atinge outras classes", referindo-se aos empregados das terceirizadas que ocupavam até as janelas do plenário da Câmara.

Diante de uma massa bem manobrada e irascível, Vasco não conseguiu explicar para essa parte da população que o projeto, na verdade, resguarda uma das poucas chances que Eunápolis ainda tem para se expandir.

Verador Vasco Queiroz discursa durante a sessão Visivelmente nervoso com a debandada dos colegas, Vasco limitou-se a cobrar da Veracel melhores salários para seus funcionários e hora extra pela obrigatoriedade de presença na sessão. Também mencionou o fato de a Veracel oferecer parcos 735 postos de trabalho, quando havia garantido 10 mil; que ela perdeu uma certificação por falta de investimento social e que o Governo Wagner não olha para o extremo sul.

O vereador Sebastião Brito foi o único que chamou a atenção do público para o fato de estar sendo manobrado pelos interesses dos patrões. "Quem está aqui hoje, está defendendo seu emprego e é natural que defenda, porque numa cidade onde não há empregos, uma Veracel que chega é um oásis". Mas Sessé lembrou que o vereador deve atender a coletividade, acima dos interesses de pequenos grupos. "Nós podemos ajudar a todos, concedendo o que for essencial à maioria".

A vereadora Carmen Lúcia disse: "participei do projeto que proibia o eucalipto caso a fábrica não fosse instalada aqui. Hoje eu ando no Juca Rosa e no Alecrim e vejo pais de família que estariam desempregados se a fábrica não viesse". Justificou que votaria contra o projeto por ele ser inviável, sem dizer exatamente em quê.

Ao final, resignado, Vasco disse que a democracia foi feita; tem a consciência tranqüila que fez o que deveria e não espera do Executivo o encaminhamento do projeto. "Passo para a história como aquele que fez o possível para que a Veracel não trouxesse tanta desgraça para o município".


Matéria:
Guilherme Ferreira

guilherme.ferreira.silva@gmail.com

Fotos:
Urbino Brito

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