Ronaldo Duran

Por: Ronaldo Duran
08/04/2011 - 07:03:27










 No mato

O motorista atinado com o ônibus deve vasculhar, além do aspecto mecânico, cada canto, cada poltrona, corredor, espaço para dizer que conhece as condições do veículo. É o que faço. Minha esposa inclusive usa frase maldosa tipo “conhece mais o interior do ônibus do que o meu”. Nem entro no mérito de discutir. É meu ganha-pão, e no mínimo temos que ter a situação sobre controle.

No item banheiro, sou impecável. As mulheres que viajam não reclamam. Nunca ouvi comentários favoráveis, mas não se queixando, quando se trata de mulher, é um tremendo elogio. Houve um ou outro camarada que andou regando fora do vaso. Logo que eu o identifiquei, pedi para que tomasse prumo.

Gosto de ser motorista. Adoro mais ainda ser motorista de fretado. Há espinhos. Para se ter uma idéia, temos em média 42 palpiteiros. Ora dizem que eu devia fazer isto ou aquilo. Ora pedem para eu andar com prudência, devagar. Ora imploram para acelerar, largar de ser tartaruga.

O que é mais implacável é ser açoitado por uma dor de barriga das bravas, que te força correr para o trono. Por enquanto, no fretado, ainda não me atacou. Lembro-me quando eu era de linha. Quantas mentiras eu inventava para descer do veículo à beira da pista, sumir no mato e retornar com o alívio estampado no rosto. Como era motorista de linha, pouca intimidade mantendo com os passageiros, tudo era muito rápido e, apesar de me criticarem entre dentes, nada falavam e seguíamos viagem. Óbvio que uns acertavam ao chutar que o motorista foi fazer o número dois. Eu nem aí.

O ideal nesse caso era parar o veículo e usar o banheiro do coletivo. À época, sei lá, eu achava muito vergonhoso. Tinha a opinião que era o mesmo que ser linchado em praça pública. Os rostos me olhando e eu atravessando o corredor, entrando no banheiro, gritando de dor lá dentro, dando descarga, saindo e passando de novo pelo corredor. Não, isto nunca.

São os inconvenientes da profissão? Ou sou eu que acho pêlo em ovo? Infelizmente tenho vergonha.

Noutra feita, voltando de Aparecida, desci no mato. Após retorno ao coletivo, fazendo uns dez minutos na estrada, passo mecanicamente a mão pelo pescoço e busco a gravata. Noto que está ausente. Puxa! Fiquei vermelho. Será que mais alguém no ônibus notou que eu voltei sem a gravata?


ronaldo duran, escritor, colabora neste espaço. twitter.com/ronaldo_duran

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