
Lembranças que marcaram uma época e a existência do povoado denominado de Km 64, origem de Eunápolis.
Por: Teoney Araujo Guerra *
Numa ensolarada manhã de domingo, dia 5 de novembro de 1950, os trabalhadores da Emenge, empresa de construção civil que construiria um dos trechos do "Ramal" - hoje parte da BR 367, que liga Eunápolis a Porto Seguro -, assistiram no acampamento da empresa, uma missa celebrada pelo padre Emiliano Gomes Pereira, pároco de Porto Seguro.
O ato religioso no qual o padre vaticinou a célebre frase: "Aqui há de surgir um centro progressista onde cristãos haverão de elevar bem alto o nome de Jesus e do Brasil", fora encomendado pelo engenheiro-chefe da Emenge, Antônio Grvatá Filho, como ato inaugural daquele acampamento de trabalhadores que, a partir daquele dia, abririam uma estrada para ligar a cidade de Porto Seguro a outra rodovia a ser aberta, que cortaria todo o extremo sul baiano, e cujo trajeto previa "passar" naquelas imediações: a BA-02. Depois da missa, uma cruzeiro foi fincado no centro do acampamento, como lembrança daquele dia.
Em torno daquele acampamento, as famílias de alguns operários passaram a instalar pequenos estabelecimentos comerciais - botecos, como os denominou Wanderley Nascimento, testemunha ocular daqueles fatos. "Foi assim que, de barraco em barraco, de família em família, o acampamento foi tomando forma de povoado", como raletou Wanderley em um livro que deixou inacabado. O povoado foi denominado de Quilômetro 64, numa referência à distância daquele local até Porto Seguro.
Desmontado o acampamento, meses depois - os acampamentos dos trabalhadores mudavam sempre de local, uma vez que tinham que acompanhar a obra -, o local foi denominado de Praça do Cruzeiro, ponto central da minúscula povoação, erguida a poucos metros da "bica", uma fonte de águas límpidas, que forencia a água de que os moradores do 64 necessitavam. Para se abastecerem, homens e especialmente mulheres desciam a íngreme ladeira que separava o lugarejo da fonte, com suas latas vazias, voltando depois, latas na cabeça, cheias do líquido precioso, arfando de cansaço. O trajeto era feito também por jumentos que, tocados pelos seus donos, também carregavam, em latas, água que era vendida na povoação.
Do tempo do acmpamento, também restou o prostíbulo, o brega, como era denominado pela população. Casas de prostitutas, onde os homens, especialmente os garimperios e picareteiros - denominação que foi dada aos trabalhadores - satisfaziam suas necessidades sexuais. Construídas um pouco afastadas da região central do povoado, as casas e botecos do prostíbulo: construções toscas, de barro, com telhados de maia-água, alguns coberto por palhas de ouricuri, ocupavam ambos os lados da estradinha de Porto Seguro. Vêm daí as primeiras festas da povoação, os forrós que animavam o prostíbulo especialmente nos fins-se-semana, nos quais, devido à pequena quantidade de mulheres para se dançar - segundo o que antigos contam -, dançavam até homem com homem, sem agarramento, muitos deles portando os revólveres 38, os "tresoitão", na cintura.
Aventureiros já chegavam à pequena povoação, o que levou Januário, um mulato pioneiro da localidade, a transformar sua residência na primeira pensão.
O povoado que não parou de crescer, se expandiu rapida e desornadamente, e em pouco tempo, residências e pequenos esabelecimentos comerciais instalados em pequenas casas, muitas delas de porta e janela, telhados baixos e, como irmãos siameses, coladas umas nas outras, formavam um novo mosaico que dominava a paisagem transformada, que até bem pouco tempo era toda verde. Quintais enormes, com árvores frondosas, frutíferas ou não, abrigavam os poucos pássaros que restaram naquele espaço estranho, e guardavam na memória dos habitantes, o verde devastado para a urbanzação. De dia, saltitavam de galho em galho, divertindo os moradores, e ao raiar do dia, com seus gorjeos, anunciavam o novo dia.
Já denominado de Eunápolis, o povoado de poucas ruas, areientas e poeirentas, já ocupara em pouco tempo a exígua área reservada ao acampamento e às obras da construção da rodovia; seus habitantes, necessitados de mais espaços para viver, cortavam as cercas e invadiam os latifúndios que impediam a expansão da futura urbe. E as cercas não resistiram ao clamor do povo. Numa tarde quente de verão, de um dia perdido no tempo, sem registro da data, uma multidão, armada com paus, machados, foices, facões e ferramentas de trabalho, desafiou a força policial, alí presente para detê-la, e invadiu as terras de Ivan Moura. Sob a liderança do doutor Gusmão, engenheiro que apoiava o movimento, alí foram construídas casas e fundado o primeiro bairro da povoação. o Bairro Gusmão, cujo nome homenageou auqele homem idelaista.
A expansão urbana se dava também por outros lados. Para as bandas da estrada de Porto Seguro, o antigo cemitério foi arrodeado por barracos que deram origem a outro bairro, o Pequi. Na região central, as casinhas simples, muitas de taipa, davam lugar a prédios melhores, que abrigavam as recém-instaldas lojas de tecidos, armarinhos, chapéus, ferragens do comércio próspero. Com a chegada de um grupo de comerciantes de Ribeira do Pombal, que aqui instalaram grandes armazéns: comércio de varejo que também vendia "no atacado" para outras localidades circunvizinhas, o povoado ganhava as primeiras características de um centro de comércio. E vieram mais lojas, profissionais autônomos, representantes comerciais, alfaiates, contadores, dentistas práticos e práticos de farmácia, médicos, enfim, uma legião de outros profissionais, além de malandros e vigaristas. No centro da povoação, as residências vão cedeno espaço a casas comerciais; o meretrício, que formava todo o primeiro quarteirão da Avenida Porto Seguro, deixa de existir; novas lojas alí instaladas, fazem desparecer as casas de prostitutas, que se mudam para o crescente Pequi.
Eunápolis vivia o período que se seguiu à transformação de BA-02 em [parte de ] uma rodovia federal, a BR-101. A exploração madeireira, antes uma atividade rudimentar que priorizava o jacarandá e umas poucas espécies nobres, se transforma num grande indústria extrativista, voraz da mata atlântica, movimentada por grandes madeireiras equipadas com motosserras, tratores e maqinário moderno, que retirou da mata nativa a riqueza que fomentou um periodo de grande crescimento ecônomico e populacional local, de transformações sócioeconômicas, de ufanismo, que faz Eunápolis ser autodenominada pelos seus moradores, de "o maior povoado do mundo".
O grande volume de dinheiro circulando na economia local, mormente nos negócios do setor madeireiro, motivou a violência: os roubos contra os madeireiros e os crimes de mando. Naquela época, a povoação viveu a era dos pistoleiros, de temidas organizações criminosas que foram denominadas de "sindicato do crime", pela promotora de Justiça, Itana Viana.
Capitaneados pelos capixabas, maioria entre o empressriado da indústria madeireira, empresários mineiros, paulistas e de outros estados fizeram a grande transformação econômica de Eunápolis - e de todo o extremo sul baiano -, que foi contemplada com novos segmentos do comércio, como o de peças e serviços, que consolidaram o povoado como maior polo de comércio do extremo sul baiano. A "euforia" econômica trouxe também agências bancárias, órgãos públicos dos governos estadual e federal, e até a administração municipal de Santa Cruz Cabrália, a Prefeitura, que foi transferida daquela cidade.
A povoação se desenvolvia também em outros setores da vida, como na educação, social e culturalmente. Colégios como o James Wright e o CPE davam uma formação de qualidade aos filhos da classe média; a implantação dos cinemas e o Clube Social, propiciavam novas opções de lazer. Época de tardes de domingo e noites memoráveis, com cinemas lotados, frequentados pela fina flor da soicedade local, que para assistir às sessões de cinema vestia as suas melhores roupas; em que as TV ainda não haviam chegado aos lares, às salas, e as famílias se sentavam nas portas das casas à noite para uma conversa, e as pessoas passeavam pela ruas e praças.
No Clube Social, festas de gala, animadas por importantes conjuntos musicais; concursos de misses, e no 05 de Novembro, sempre uma festa especial, comemorando em grande estilo, a fundação do povoado. Programação que chegou a durar uma semana, com atividades culturais, como consurso literário e festival de músicas; competições esportivas, como corridas de bicicletes e de jegue, torneios de futebol; e ainda, festival de calouros, o bailde de gala, e, como ponto alto da programação, a insequecível Gincana. Em razão dela, toda a população se mobilizava! A elite social e autoridades se entregavam à organização; a juventude, participava das equipes: Oba Oba, Equipe Cão, Saporeca e Urbis Quipe, ainda lembradas; e a população, milhares de pessoas, se aglomerava ao longo da avenida Porto Seguro e na Praça do Jacaré - a antiga Praça da Bandeira teve o nome mudado duas vezes oficilmente, além de ser denominada extraoficialmente de Praça do Jacaré, a que ficou mesmo no coração e na lembrança do povo - para assistir a sua realização, ao cumprimento das tarefas.
A última edição dos festejos do 05 de Novembro, mais animada e de mais longa duração, uma semana, foi realizada em 1987. E por sua grandiosidade, os bailes tiveram que ser transferidos do Clube Social para o Ginásio de Esportes, animados por ícones da música brasileira: o conjunto The Fevers e o cantor Geraldo Azevedo.
A agitação econômica e social refletiu também na política, despertando um ideal de independência, latente em muitas mentes. Um primeira iniciativa fracassou, manipulada por políticos dos municípios aos quais Eunápolis pertencia. Porem, a segunda prosperou, resultando no desmembramento de partes dos territórios de Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália para a criação do município de Eunápolis e sua emancipação.
Em 1988, com a instituiçã da cidade, o povoado teve uma espécie de morte súbita, sem direito a homenagem póstuma, choro nem vela. Simplemente passou, como as águas de um rio, que vão para não mais volltar. E o 05 de Novembro, de tantas e boas lembranças, tornou-se um relicário perdido no tempo, o tempo insensível, cruel, que a tudo esquece, todas as memórias apaga.
*Teoney Araújo Guerra é memorialista